Enquanto salões de bingo convencionais vão aos poucos desaparecendo no país, uma nova geração de fãs se reúne anualmente em várias cidades do interior da nação da Escandinávia para uma maneira mais social de jogar.

“Rápido, ligue a ignição!”, exclama Stina Broberg, com sua caneta-carimbo roxa posicionada sobre uma cartela cheia de números apoiada no volante do carro. Precisando de apenas mais um número para fechar a cartela, ela precisa buzinar rapidamente se o número for chamado.

No interior da Suécia, o clima está ficando tenso. O único som que se consegue ouvir em meio a 130 carros estacionados em filas em um campo é um suspiro ocasional de frustração, à medida que os números são chamados por meio de alto-falantes.

Isso é bingo drive-in: um passatempo sueco aproveitado por dezenas de milhares de frequentadores do interior ao longo dos verões. Enquanto os salões de bingo tradicionais da Suécia sofrem com o crescimento dos jogos online, o drive-in sobreviveu como uma forma mais social de participar do jogo. E agora vem atraindo um público novo – os mais jovens.

“Para mim, isso é o verão – quando o bingo drive-in começa, você sabe que ele está chegando,” diz Frida Stån, 27, uma assistente pessoal. Ela está grávida de 8 meses e está aproveitando sua última chance de socializar antes de seu bebê chegar.

Stån e Broberg, 26, estacionaram seu velho Volvo em um campo com 300 outras pessoas para a primeira noite da estação. O Sol está no céu e uma brisa quente farfalha as copas das bétulas no campo, próximo à pequena cidade de Lidköping, no sudoeste do país. 

“Eu amo só ficar sentada no carro com alguns amigos e uma xícara de café,” ela diz. Ela e Broberg, uma assistente social, pagaram 185 coroas suecas (R$80) cada pelas cartelas de bingo necessárias para os muitos jogos que acontecerão na sessão de três horas de duração desta noite.

No alto verão, o campo em Lidköping fica lotado de carros de famílias que vão fazer piqueniques. Essa é também a época onde há mais dinheiro a ser ganho, com o valor dos prêmios subindo até a faixa das 40,000 coroas (R$17,000). Hoje, moradores da região jogam por dezenas de prêmios em dinheiro. Quando completam uma linha, basta buzinar e um funcionário vestido com uma jaqueta amarela checará os números.

Muitos salões de bingo tradicionais fecharam nos últimos anos, mas com menos supervisores, o drive-in – organizado por voluntários e frequentemente voltado para arrecadar fundos para sociedades esportivas locais – permaneceu popular.

“A maior parte das companhias privadas deixou de lado os salões de bingo porque não conseguem lucrar o suficiente,” diz Anders Manheden, da Confederação de Esportes do Oeste da Suécia, uma organização sem fins lucrativos que comprou muitos dos salões de bingo quando fechavam para manter um fluxo de dinheiro nos esportes. “Os drive-ins acontecem em áreas rurais, longe da sala de bingo mais próxima”, ele diz.

A essência excêntrica, porém cativante, desse fenômeno foi transformada em canção pelo músico indie Jens Lenkman: “Então é isso que eles fazem aqui para se divertir? Jogam bingo e deixam seus motores ruir? … Traga um dinheirinho e uma garrafa de vinho / para a reversão no tempo de sexta à noite.”

“Evoca uma sensação de nostalgia em mim – mas é como uma estranha nostalgia, por um tempo que nunca aconteceu na verdade,” diz Lenkman. “Eu acho que os Estados Unidos da década de 1950 às vezes ecoa pela Suécia, particularmente pelas áreas rurais e cidades pequenas, onde muita gente dirige carros clássicos americanos e ouvem rock antigo. Bingo drive-in parece um cruzamento entre o amor pelos drive-ins dos americanos e o amor pelo bingo dos suecos.”

O que se iniciou no começo da década de 1990 como uma maneira diferenciada de jogar bingo se tornou um passatempo diurno para famílias do interior, de acordo com Christian Bayard, que licencia os jogos na província da Gotalândia Ocidental. Muitos dos moradores das metrópoles suecas nunca nem sequer ouviram falar da existência de bingos drive-in, ele diz: “e quando ouvem, riem.”

Só em 2015, ele emitiu 30 licenças para drive-ins, com o maior jogo movimentando a quantia de 5 milhões de coroas suecas (R$2,3 milhões). Não há estatísticas centralizadas, mas websites para entusiastas do bingo drive-in sugerem a existência de muitos clubes espalhados por todo o país. Mas o auge do jogo já passou, Bayard afirma, e ele está passando por um lento declínio à medida que mais pessoas se mudam para as grandes cidades.

No entanto, em Lidköping, a noite só vai esquentando. Um coro de buzinas soa enquanto as pessoas retornam aos seus carros após uma pausa para comer cachorros-quentes e tomar café; eles estão impacientes para retomarem o jogo, e a noite se aproxima de seu clímax. “As pessoas levam o jogo a sério, e a gente fica sempre alerta,” diz Svensson, 56, que organiza o drive-in com seu irmão Mikael. O objetivo principal do jogo é arrecadar fundos para um clube de luta livre e a expectativa é de faturar 1.5mi de coroas suecas ao longo da temporada de 14 semanas.

“A cada hora que passo aqui, faço 1000 coroas para o meu clube,” diz Mikael, 51, um funcionário público das forças aéreas. “E é ótimo esbarrar em pessoas na cidade que conheci aqui no drive-in.” Amanda Johansson, 24 anos, assistente de vendas, está jogando pela segunda vez em um carro lotado de amigos. “É legal,” ela diz. “E é barato. Nós viemos aqui com café e petiscos – é um encontro. E o público fica cada vez mais jovem”. 

Dessa vez, o jackpot foi ganho por uma enfermeira felicíssima que veio ao drive-in com sua sogra. Elas frequentam o bingo há 8 anos. Na carrocinha de cachorro-quente do campo, a estudante Emma Karvik, 19, trabalha para arrecadar fundos para seu time de futebol. “É uma maneira ótima para jovens se encontrarem, e eles também podem ganhar um dinheirinho,” Karvik diz. “E, de qualquer forma, acho que não há muito mais o que fazer por aqui.”

Originalmente publicado no The Guardian.