É quinta-feira e são dez e meia da manhã. Na porta do Bingo Congreso, em Buenos Aires, Argentina, duas mulheres esperam sentadas na escada, esperando a abertura do bingo. Depois, uma outra mulher chega sozinha, e outra, e mais outra, e vão se organizando em uma fila silenciosa. Há uma mulher que saiu de sua casa para fazer compras, e agora forma a fila segurando suas bolsas do supermercado nas mãos; e há uma velhinha que está sob a observação de sua cuidadora.

Elas chegam primeiro porque o resto as necessita: apenas quando há mais de 20 pessoas no salão, a primeira bola é sorteada. Se sentam em mesas redondas, fumam um cigarro na escuridão e uma se queixa: o café com medialunas que custava AR$19 e que significa um café da manhã barato, que as sustentava durante as longas manhãs com desconhecidas, aumentou de preço.De acordo com uma estimativa feita pela Cámara Argentina de Salas de Casino, Bingos y Anexos, 7 a cada 10 pessoas que entram em bingos – seja para jogar nas máquinas, ou no clássico jogo de cartões – são mulheres. No entanto, há lugares de jogo, como o Casino de Mar del Plata, onde a proporção fica ainda maior: desde que a cidade de Mar del Plata se converteu em um grande centro de eventos e conferências profissionais, há 8 mulheres para cada 2 homens jogando nas máquinas, de acordo com o próprio cassino. E nos jogos de mesa – que sempre foram território dos homens, como as roletas – agora tem 70% de seus apostadores sendo mulheres.

Entre as frequentadoras, há três grupos distintos, de acordo com Susana Calero, psiquiatra e diretora do Centro de Asistencia, Capacitación e Investigación de las Socio-Adicciones (CACIS). O primeiro é composto por mulheres jovens entre 25 e 35 anos, solteiras, que vão se entreter com as máquinas porque não tem com quem nem para onde sair; em um boliche se sentem incomodadas, e ir ao teatro parece caro. O outro é feito de mulheres entre 45 e 60 anos; num geral, também são solteiras, mães de filhos que já saíram de casa, e também vão ao bingo preencher um espaço de solidão. Por último, estão as senhoras mais idosas, que às vezes se movem com ajuda de muletas: no bingo as chamam pelo nome, lhes dão docinhos e uma xícara de chá, e assim se passa um dia inteiro. Quando as perguntam por que vão ao bingo, dizem: “E se não for, para onde vou? Que faço durante as manhãs ou domingos inteiros?”. Para uma pessoa empobrecida, os preços são chamativos: a entrada é AR$2, uma cartela a partir de AR$3 e os prêmios são evidência de que não é a possibilidade de ficar milionária que as movem; no bingo das 11 da manhã, uma linha completa vale AR$13.

Jogam pouco dinheiro, mas nas 49 salas de bingo na cidade de Buenos Aires e na província são um público-alvo. No Bingo de Avellaneda, por exemplo, as máquinas  não apresentam desenhos de carros, mulheres sensuais ou cerejas: encontram-se máquinas de Sex and the City, cor-de-rosa e iluminadas onde giram sapatos de salto, jóias e bolsas: se ganha quando se juntam três corações. E não há dinheiro vivo – no lugar, se usa um cartão de fidelidade que carrega o nome da jogadora. O ambiente é inspirador: uma sala carpetada com luzes indiretas, que parece o lobby de um hotel caro, e um teto azul-celeste com nuvens brancas pintadas e focos que parecem raios de sol. Lá dentro, fica difícil até acreditar que do lado de fora da porta, há um viaduto e uma cidade cinza.

Débora Blanca, psicóloga e diretora do Entrelazar, um centro de investigação e tratamento do vício em jogo, afirma: “O jogo pode trazer um efeito autohipnótico. A diferença para os homens, que apostam grandes quantias e buscam vertigem e adrenalina, é que as mulheres usam o jogo como um antidepressivo: se sentam, jogam por pouco dinheiro e buscam matar o tempo.”

Algumas máquinas estão em inglês, porém não importa, porque muitas nem procuram entender. Nos fins de semana, chegam os noivos e maridos; durante a semana, quando os maridos estão trabalhando e as crianças no colégio, nada as incomoda. O problema é que o limite entre o jogo que entretém e o jogo problemático é muito instável. Rafaela, uma viúva de 76 anos, sabe: “em um momento me entusiasmei e passei a vir todos os dias depois de almoçar. Até que eu disse não, chega, e hoje em dia venho esporadicamente para me divertir”. Como Rafaela, existem muitas, na Argentina e em todo o mundo.

Originalmente publicado no Clarín.