Uma das primeiras coisas que você aprende no bingo de drag queen é que, se você não sabe brincar, não deveria descer para o play. Sim, estamos falando de bingo – o jogo adorado por vovós de cabelo matizado em lilás e eventos beneficientes organizados por igrejas – mas uma drag queen é uma drag queen, e se sua mesa estiver caótica, ela vai retribuir com caos também. Meus amigos e eu decidimos ir a uma noite de jogo no Lips, um restaurante em Manhattan, Nova Iorque, que se transforma em um bingo liderado por drag queens durante os dias da semana.

A queen Ginger se revezava no microfone com Yvonne Lame, dona do restaurante; vestida com uma uma peruca lisa com corte chanel e uma longa jaqueta de veludo, Yvonne causava um contraste muito grande quando comparada com os penteados altos e estampas de oncinha vestidas pelas outras funcionárias do Lips. No palco, os comentários ácidos feitos por Ginger e Yvonne sobre assuntos variados, que iam desde Michael Jackson aos Vigilantes do Peso, não perdoavam nem queens nem jogadores. Quando a primeira vencedora da noite se dirigiu ao palco para ter sua cartela verificada – e esqueceu a cartela em sua mesa e teve que voltar para pegar – Ginger disparou imediatamente: “ainda bem que ela é bonitinha, porque claramente vemos que não é inteligente“. Brincadeiras são comuns, e fazem parte da diversão da noite.

Bom… bingo e drag queens. De onde, você provavelmente está se perguntando, essa improvável combinação saiu? Foi de Seattle, a maior cidade do estado americano de Washington. No início da década de 1990, Judy Werle, diretora de desenvolvimento de uma ONG de suporte para pessoas com AIDS chamada Chicken Soup Brigade, se tornou responsável pela função de idealizar os eventos beneficientes da ONG. “Eu visitei lugares onde as pessoas iam sabendo que iriam gastar dinheiro, como lojas e cassinos; meu pensamento foi que, se eles tinham o dinheiro e estavam dispostos a gastá-lo, também poderiam redirecioná-lo para uma boa causa”, afirmou Werle. Essa lógica a levou para as salas de bingo. “Eram lotadas de pessoas que eram obcecadas pelo jogo”, disse, “mas que também pareciam estar entediadas. Então, nós decidimos animar tudo da maneira que apenas as drag queens na época pareciam conseguir.

As queens do grupo The Sisters of Perpetual Indulgence (Irmãs da Perpétua Indulgência) foram as líderes do primeiro “bingo gay” da Chicken Soup Brigade – e a fila para entrar no evento deu a volta no quarteirão. A organização percebeu o tamanho do sucesso, e rapidamente começou a realizar mais eventos do gênero. No começo, os frequentadores eram majoritariamente LGBT, mas com o tempo o público se expandiu – uma ótima notícia para a Brigade, que estava buscando aumentar a base de doadores.

O sucesso foi tanto que chamou a atenção de outras ONGs relacionadas à AIDS. No fim dos anos 90, o diretor de documentários para TV Glenn Holsten foi a um dos eventos e, tocado pela história de uma família que foi ao bingo para celebrar a vida de um filho perdido para a doença, decidiu realizar um documentário. O filme resultante, Gay Bingo, lançado em 2001, mostra a diversidade dos frequentadores: homossexuais, heterossexuais, idosos, jovens, negros, brancos, solteiros, casados. “O clichê é verdadeiro,” diz Holsten. “O bingo une pessoas de todos os tipos.”

A partir disso, o interesse no jogo apenas cresceu. O evento de bingo drag se espalhou para Boston, Chicago, Denver, San Francisco, Dallas e Los Angeles. Posteriormente, passou a ser realizado até em locais de menor população: para os estados de Utah, Alaska, Idaho, Wyoming. Em algum ponto do caminho, o bingo drag queen também se tornou um atrativo comercial, com bares, boates e restaurantes abrigando jogos como uma forma de atrair multidões e lucrar. Então, o evento foi parar na televisão de grande alcance: na segunda temporada da série Sex and the City, Carrie e suas amigas visitam um de seus bares favoritos, que recebe bingos de drag queen nas noites de sábado. Em Nova Iorque, hoje em dia, você pode encontrar um jogo de bingo drag praticamente todas as noites da semana, incluindo um específico cuja cantora de bingo não é uma queen humana – mas um fantoche que simula uma.

Os maiores jogos, no entanto, ainda fazem parte de campanhas de arrecadação. Uma vez por mês, o público lota o centro de convenções Durham Armory, com capacidade para 800 pessoas, na Carolina do Norte, para uma noite de bingo livre de álcool e aberta para crianças. Em uma noite comum, por volta de 10 mil dólares são arrecadados para a Alliance of AIDS Services Carolina. Em 2002, quando a Alliance realizou seu primeiro jogo, “pensamos que se cem pessoas fossem e doassem mil dólares já seria um milagre,” afirma John Paul Womble, diretor de desenvolvimento da ONG. Na realidade, os ingressos para o evento esgotaram, e a Alliance eventualmente teve de mudar o lugar para poder receber um número maior de pessoas. Inseguro sobre conseguir encher um espaço tão grande, Womble entrou em contato com a televangelista Tammy Faye – pastora, cantora e ícone gay dos Estados Unidos – e perguntou se ela poderia cantar os números do bingo. Ela concordou, e os ingressos do primeiro evento sediado no Armory esgotaram rapidamente. Daí em diante, todos os eventos se mostraram um sucesso.

Agora, o bingo drag está se espalhando por ONGs que não possuem nenhuma raiz particular na comunidade LGBT. Em meados de 2007, a Young Professionals Network of the Rocky Mountain Multiple Sclerosis Center (Associação de Jovens Profissionais do Centro de Esclerose Múltipla das Rocky Mountains) conseguiu arrecadar 8000 dólares por meio da realização de um bingo drag queen. “Nós estamos tentando engajar pessoas mais novas, na casa dos 20 e dos 30 anos,” declara Kathryn Buckley, coordenadora de desenvolvimento do centro médico localizado em Englewood, no Colorado. “Há muitos de nós que não tem a condição financeira pra realizar nem participar de grandes eventos black-tie, nem de torneios de golfe beneficientes. Os bingos nos parecem muito mais divertidos, além de democráticos.” A ideia foi tão bem-sucedida que a associação passou a realizar o bingo drag anualmente. 

De volta para Nova Iorque, minha experiência no bingo drag não era tão filantrópica assim. Após algumas rodadas sem vitórias, sentei ao lado de Yvonne Lame – nome drag de Mark Zschiesche, dono do restaurante que possui 4 filiais em diferentes estados dos Estados Unidos – e a perguntei por que o bingo funciona, mesmo sib circunstâncias tão questionáveis. “Todo mundo se anima com a possibilidade de ganhar um prêmio e é muito fácil de jogar”,  ela afirmou, “Mesmo se você já tiver bebido alguns drinques, você consegue.”

Os produtores da série da ABC National Bingo Night apostaram nessa diversão universal. Ao ser perguntado sobre a aparição do bingo de drag queens em televisão nacional,Andrew Glassman, o produtor executivo do game show,  afirmou que “vemos o jogo como algo que todo mundo pode curtir, independente do gênero e das roupas que usam”. Isso é um fato. Mas acredite: jogar bingo fica ainda mais divertido quando envolve as queens.

Adaptado da Times Magazine.