Uma DJ em um macacão de lycra multicolorido e uma bomber jacket bordada com paetês está dançando pelo palco de um porão no leste de Londres, capital da Inglaterra, ao som de música disco enquanto jovens levantam balões, braços e copos de cerveja, cantando juntos. 

No entanto, os balões em formatos de letras sendo balançados pela multidão em êxtase soletram uma história muito diferente da típica balada – em vez de D.I.S.C.O, dizem B.I.N.G.O: mas não o bingo da forma clássica que a maior parte das pessoas experimentou.

Dabbers, um clube a poucos metros de distância dos bares e baladas hipsters do bairro descolado londrino de Shoreditch, tem a esperança de liderar uma das reinvenções mais inesperadas do passatempo britânico. Em vez de servir aos jogadores frango e batata frita com Coca-Cola ou cerveja, Dabbers oferece edamame salgado, espetinhos de camarão-tigre e falafel de abóbora e espinafre com salada caesar, junto de suas cartelas de bingo. Jogadores podem fazer novas amizades se sentando em mesas compartilhadas no porão, que à primeira vista, parece uma boate comum: decorada com luzes de neon em tons frios, paredes pintadas de preta, e cujo menu de bebidas inclui cervejas artesanais e coquetéis clássicos.

Com músicas famosas, como When I’m 64 dos Beatles, sendo utilizadas para chamar alguns dos números que são sorteados por uma máquina futurista, o ambiente é completamente diferente dos carpetes velhos e decorados e dos números repetidos de forma maçante – não se pode ficar entediado aqui.

 


 

Os salões de bingo tradicionais da Inglaterra foram fechando em um ritmo cada vez mais rápido ao longo do fim do século XX, de acordo com a empresa de pesquisa de mercado Mintel; mas novos empreendimentos esperam reviver a febre do jogo, apelando para um público mais jovem. O Dabbers planeja abrir novas filiais em Londres e em Manchester ao decorrer próximos cinco anos; a empresa Social Entertainment Ventures, dona dos modernos centros de mini-golfe Puttshack, vai abrir uma sala de bingo moderna e de alta tecnologia em Londres chamada Hijingo no início de março.

A empresa que controla a franquia de bares Slug & Lettuce, Stonegate, levou para o Reino Unido a “rave bingo” Bingo Loco – que combina canhões de confete e música com o jogo – enquanto o bingo clássico Gala renovou a marca de 100 de seus salões sob o nome de Buzz, parcialmente em uma tentativa de tentar atrair uma audiência mais jovem. Todos estão tentando aproveitar a moda das atividades em casas noturnas, além do consumo de álcool, que já levaram ao crescimento diversões como mini-golfe, tênis de mesa, shuffleboard, jogos de escape e até mesmo arremesso de machado.

Ao longos dos últimos anos, pelo menos 15 novos centros de mini-golfe que parecem mais com boates foram abertos na Inglaterra. A tendência está sendo apoiada por shopping centers e imobiliárias, que estão desesperados por novas ideias que possam chamar a atenção de jovens e famílias, de forma que estes preencham o vazio deixado por lojistas que não se adaptaram aos novos tempos.

 


 

Adam Breeden, cofundador da Social Entertainment Ventures, que, além de mini-golfe, também possui bares de tênis de mesa e jogo de dardos, afirma que houve um grande crescimento recente em experiências de entretenimento e socialização baseadas em atividades variadas, todas em clima de festa. “Não é sobre a competição, mas de se divertir e interagir com outras pessoas. Vai, certamente, surgir um novo mercado, com mais e mais pessoas se aventurando cada vez mais e mais nesses tipos de lugares.”

Breeden, que pretende abrir mais uma ou duas filiais do Hijingo em 2020 e até quatro novas em 2021, acredita que o bingo poderia ser maior que a maior parte das novas casas de diversão, por conta da já existente popularidade de eventos como bingo brunch e bingos musicais em pubs e casas noturnas. “Esse tipo de evento é sempre uma das noites mais maravilhosas que você possivelmente teria,” afirma Brennen, que ressalta que poucos dos frequentadores dessas noites animadas regadas à bebida  estão acima dos 30 anos. “As oportunidades de atividades aliadas ao bingo são tão vastas que é certo que vamos ver essa linha se expandir rapidamente.”

O fundador do Dabbers, Ed Wethered, passou dois anos e meio juntando dinheiro para abrir seu negócio, após organizar uma sequência de sessões de bingos beneficientes em noites de segunda-feira que se mostraram um enorme sucesso.

“Era inacreditavelmente popular. Os prêmios não eram nem tão bons – eram só latas de cerveja e hambúrgueres, e tudo o que tínhamos eram cartelas e canetas, não máquinas,” ele relembra. “Então eu pensei: por que não criar um ambiente especificamente para curtir o jogo? Estamos cada vez mais criando um espetáculo, com artistas, comediantes e outros atos para criar um ambiente com ainda mais entretenimento enquanto chamamos os números. Uma noite inteira de diversão pelo preço que você pagaria por 45 minutos em outros tipos de atividades, como minigolfe. Nesses locais, você precisa fazer sua própria diversão, enquanto nós dizemos ‘venham e nós faremos ser fantástico’. Estamos oferecendo um pedaço de história, mas com um viés moderno.”

 

de Sarah Butler. Publicado originalmente no The Guardian.